Regina Giora conversa com o professor Norberto Stori

Nesta edição, Regina Giora, colaboradora do Semanário da Zona Norte, mestre e doutora em Psicologia Social, especialista em Liderança Universitária e Gestão de Pessoas, entrevista o professor e artista plástico Norberto Stori. O entrevistado é formado em Desenho e Plástica pela Faculdade de Comunicações e Artes da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), São Paulo; mestre, doutor em Comunicação e Artes e livre-docente em Artes.

Giora – Prof. Stori, é uma alegria e um enorme prazer contar com sua presença neste espaço do Semanário. O senhor reconhecidamente é um dos aquarelistas mais importantes do Brasil e tem se destacado em vários espaços internacionais. O que o levou à arte. O senhor sempre soube que seria artista?

Stori – O que me levou à arte, creio que tenha sido o ambiente familiar. Minha mãe desenhava e bordava. Sempre a via envolvida com os desenhos de bordados e também pegando referências para criar os seus. Às vezes, eu a via por horas e horas com as linhas coloridas estudando as combinações cromáticas para elaborar os seus bordados como também com tecidos coloridos para as aplicações em seus trabalhos. Lembro-me que desde a pré-escola pegava os pedaços de giz que ficavam no quadro negro para poder desenhar no piso da lavanderia e no tanque de lavar roupa, que eram encerados com um pigmento vermelho intenso. Às vezes pegava também pedaços de tijolos macios para desenhar. No final do curso primário comecei a criar o meu “museu” particular, recortava as reproduções de obras de artistas que saíam nas revistas Manchete, Cruzeiro, Seleções, jornais e as colava em cadernos de desenho. Não sabia quem eram os artistas no momento e só depois que viria saber. Lembro-me de alguns artistas como Picasso, Van Gogh, Portinari, Di Cavalcante, Tarsila, Anita Malfatti, Michelângelo, Leonardo da Vinci e tanto outros. Nunca soube que seria artista. O meu objetivo era fazer uma boa faculdade de artes plásticas para ser professor de desenho no colégio onde estudei na minha cidade – São Joaquim da Barra, no interior de São Paulo.

Giora -Em geral, na nossa trajetória de vida, alguém nos inspira a tomar um caminho. O incentivo para percorrer essa trajetória veio de quem ou de onde?

Stori – Creio que já respondi parte desta pergunta na anterior, mas quem me inspirou a tomar o meu caminho artístico foi o próprio ambienta do curso de Bacharelado e Licenciatura em Artes Plásticas da FAAP/SP, principalmente os salões de fim de ano onde nos inscrevíamos com trabalhos e concorríamos a prêmios e bolsa de estudos. Logo no segundo ano do curso comecei a ser monitor da disciplina Gravura e no terceiro ano fui convidado a ministrar a disciplina Composição Bidimensional no Curso Preparatório para o vestibular da FAAP/SP. Mas o incentivo maior veio do professor José Moraes, sempre atento aos meus trabalhos e foi a primeira pessoa que me apresentou à galerias de arte aqui em São Paulo. Por isso sou muito grato a ele até hoje. Como incentivo havia também os salões de arte.

Giora – Como se dá o processo criativo no seu caso especificamente. Existe a inspiração. O que dizer da transpiração. que tempo o senhor dedica ao seu trabalho criativo?

Stori – O meu processo criativo se dá pela observação da natureza. Os seus elementos principalmente o céu e seus efeitos cromáticos e luminosos. Na paisagem natural observo incansavelmente a vegetação, as cores e seus tons. Neste período, temos na Serra do Mar com os tons de lilás do Manacá da Serra em contraste com o amarelo das Acácias além dos tons de verde. A inspiração vem do nosso conteúdo, formas e cores vivenciados e observados da natureza, pois a paisagem é o meu estímulo principal. A transpiração é a força que nos auxilia a transformar algo que ainda está invisível, latente em algo visível. Não conto o tempo, mas sim momentos em que o trabalho me chama a ser realizado. Com esses exercícios de observar a natureza e seus elementos vou acumulando elementos mentalmente e aí começa o processo de criação. Fico pintando mentalmente e depois começo a realizá-las na pintura em aquarela no meu atelier bem no centro de São Paulo, onde é só cimento e cinza.

Giora – Que sensação lhe invade quando vê uma obra acabada?

Stori – Quando sinto que uma obra está acabada, o que não ocorre constantemente, sinto uma sensação de pleno encontro comigo mesmo. Demora um pouco, fico observando e observando e isso pode levar muito tempo até a pintura pedir para eu parar de trabalhá-la.

Giora – Como o senhor reage à critica, quer seja ela positiva ou negativa?

Stori – Nunca liguei para a crítica, pois trabalho para a minha realização pessoal. Sempre vislumbro a luz no fim do túnel. Vou intuindo na minha busca pictórica. O meu processo de trabalho não é racional, é intuitivo. Somente eu vislumbro o que busco e assim vou nessa busca.

Giora – Pode-se viver de arte no Brasil?

Stori – No meu caso não é muito fácil viver de arte, porque trabalho com arte cujo suporte é o papel, na técnica da pintura em aquarela como também na gravura em metal e infelizmente no Brasil há preconceito sobre arte cujo suporte é o papel. Em São Paulo há somente duas ou três galerias de arte que trabalham com o papel. Felizmente tenho compradores tanto no Brasil como no exterior onde a aquarela é muito reconhecida, mesmo assim tenho obras em coleções particulares e em museus como no MAM-Museu de Arte Moderna de São Paulo, Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, no MARGS-Museu de Arte do Rio Grande do Sul/RS, Museu da Aquarela da Cidade do México/Mexico e demais espaços culturais. Tenho participado muito como artista convidado de Bienais Nacionais, Bienais Internacionais de Aquarela como de Salões.

Giora – Mas, afinal qual o papel e a função da arte na sociedade contemporânea. Podemos dispensar a arte no nosso cotidiano?

Stori – Apesar da Arte Contemporânea se apresentar cada vez mais difícil de fruição por parte do espectador, o papel e a função da arte na sociedade contemporânea creio que sejam o mesmo de sempre, quando há verdade na obra realizada, o que está cada vez mais difícil de se ver, porque a preocupação da maioria dos artista contemporâneos é o mercado de arte, é o marketing, onde há também a presença do curador, do galerista, das casas de leilões, das instituições culturais como museus, galerias, etc., e com isto percebemos que cada vez mais é necessário um mediador, uma pessoa que faz uma aproximação entre o público e a obra, e isto faz com que a arte cada vez mais vá se distanciando da maioria dos mortais. Mesmo assim, jamais poderemos dispensar a arte do nosso cotidiano.

Giora – O senhor nunca deixou de ser professor, como conjuga o papel de artista e professor de arte ? Qual a importância da arte na escola ? Alias, qual o espaço ocupado pela atividade artística na escola ?

Stori – O papel de artista e professor de arte se completam, um enriquece o outro. O artista para elaborar a sua obra vai construindo uma metodologia com teoria e prática e tanto a teoria e a prática vivenciados enriquecem o professor que ao passar conteúdos aos alunos, passa-os com mais segurança e o professor por ter que estudar e pesquisar vai também enriquecer o artista. A arte na escola é de suma importância para formar cidadãos mais sensíveis, com um universo maior, para que um enxergue e respeite o outro. Infelizmente a atividade artística vem cada vez mais ocupando menos espaço na formação escolar.

Giora – Que relação existe entre arte, educação e cultura?

Stori – Arte, educação e cultura não existem separadamente, todas se completam e se alimentam. Infelizmente isto não vem acontecendo em nosso país.

Giora – O senhor acredita no talento inato ou o aprendizado é que faz o artista?

Stori – Acredito que nascemos com potencialidades, mas é necessário alimentar essas potencialidades com conteúdo teórico, visual e muito trabalho. Caso contrário, não acontecerá nada. Temos muitos talentos que dificilmente terão oportunidade de desenvolver todo o seu potencial devido principalmente à carência econômica e cultural. O que nós da sociedade civil podemos fazer para apoiar em especial esses jovens. Primeiro, acredito que a sociedade civil deva votar em representantes políticos que realmente sejam engajados na formação do cidadão brasileiro, visando uma ótima educação desde a básica à universitária. Que crie um projeto político educacional e cultural. Que estimule empresários e cidadãos em projetos educacionais e artísticos.

Giora – Que lugar as linguagens artísticas, podem ocupar na vida dos idosos?

Stori – Creio que as linguagens artísticas sejam de suma importância na vida dos idosos, pois ao estarem envolvidos com realizações estéticas, estarão se descobrindo e dialogando consigo mesmos, com a família e com a sociedade, não ficando no compasso de espera para um final de vida como geralmente observamos nos lares, nos asilos e nas casas de saúde.

Giora – Que mensagem o senhor daria àqueles que desejam ser artistas plásticos?

Stori – Que invistam em seus sonhos para serem pessoas realizadas. Que voem, mas com os pés no chão.

Giora – Muito grata pela generosidade de me conceder essa entrevista.