Regina Giora conversa com Maria Aparecida de Aquino

Nesta edição, Regina Giora, colaboradora do Semanário da Zona Norte, mestre e doutora em Psicologia Social, especialista em Liderança Universitária e Gestão de Pessoas, entrevista Maria Aparecida de Aquino, professora e historiadora. A entrevistada é formada em História e Educação Artística na graduação, com mestrado e doutorado em História Social pelo Depto. de História da FFLCH/USP. Atualmente conclui o seu pós-Doutorado pelo CPDOC da FGV/RJ. É professora do Depto. de História da FFLCH/USP e pesquisadora do regime militar brasileiro (1964-1985) e das possibilidades contemporâneas da consolidação da democracia em nosso país. Autora de Censura, Imprensa, Estado Autoritário (1968-1978) – Bauru:Edusc, 1999; Radiografias do Autoritarismo Republicano Brasileiro (5 volumes) – SP:Imesp, 2002; entre outros.

Giora – Profa. Aquino, a sra. é reconhecidamente uma das mais importantes pesquisadoras de história contemporânea no Brasil. Poderia fazer uma avaliação do ensino de história no ensino básico e médio, principalmente ?

Maria Aparecida de Aquino – Em relação ao ensino fundamental e médio acredito que ainda não foram assimiladas as principais discussões que a Historiografia tem realizado nas últimas décadas, resultando num ensino de História ainda vinculado a uma concepção linear e progressista da História que não discute questões como a da cronologia e da tematização. Outro problema fundamental que impede um bom resultado no ensino fundamental e médio relaciona-se com o salário dos professores, completamente defasado. Se quiser pensar em um bom aproveitamento de alunos e professores é preciso, urgentemente, discutir com seriedade a questão salarial. Primeiro se equaciona o salário dos professores e, depois, pode se partir para as “cobranças” que envolvem, inclusive a problemática da formação dos profissionais da educação.

Giora – Gostaria também que tecesse alguns comentários sobre a formação do professor(a) de história no nosso país. Se não for a docência, é possível encontrar outros espaços para exercer sua atividade ?

Maria Aparecida de Aquino – Embora ainda discutido de forma insuficiente, o Brasil caminha para uma valorização da sua História, repensando-se qual a História que contamos, qual é o passado que construímos e queremos passar para as futuras gerações . Nesse sentido, profissões como as de arquivista e pesquisador tenderão a ter, cada vez mais, um espaço nas preocupações do profissional formado em História.

Giora – As universidades têm se empenhado em formar pesquisadores nessa área? A propósito, o que é necessário para se tornar um professor-pesquisador, além de cursar um programa de pós-graduação?

Maria Aparecida de Aquino – Um ensino ideal seria aquele que formasse o professor-pesquisador já que não se pode desvincular o ensino da pesquisa. Entretanto, de maneira geral, isto acontece nas grandes universidades, ou seja, aquelas que trabalham com o professor-pesquisador e não apenas o professor “horista” que ministra aulas na instituição e recebe apenas por hora-aula trabalhada. Um professor-pesquisador é aquele que realiza pesquisas documentais e, para formá-lo, além dos cursos de pós-graduação, é preciso um investimento no sentido do despertar a reflexão do profissional acerca da disciplina que ministra, do mundo no qual está inserido, do papel da educação em nosso país e da contribuição que um historiador poderia ter nesse contexto.

Giora – O que a motivou a estudar história, optar pela docência e pela pesquisa?

Maria Aparecida de Aquino – Inicialmente, a identificação com os professores que me formaram e que me fizeram querer ser professora, tendo-os como modelos. Posteriormente, o desejo da descoberta, a paixão por um tema e a vontade de contribuir para a construção de um conhecimento na direção do mesmo.

Giora – Que pensadores foram fundamentais na sua formação?

Maria Aparecida de Aquino – E. P. Thompson, Robert Darnton, Michel Foucault, Michel de Certeau, Carlo Ginzburg, fundamentalmente.

Giora – Qual o principal foco das suas pesquisas?

Maria Aparecida de Aquino – Estudo o regime militar brasileiro e as possibilidades de consolidação da democracia contemporânea em nosso país.

Giora – Qual o papel e a função da imprensa escrita e falada?

Maria Aparecida de Aquino – A imprensa é fundamental como esteio da construção da própria democracia. Uma imprensa livre é uma das mais sólidas bases para a democratização das relações entre Estado e Sociedade dentro de um país.

Giora – Podemos falar em democracia se eliminarmos a liberdade de expressão?

Maria Aparecida de Aquino – Não. A construção da democracia necessita da liberdade de expressão, sem a qual as relações entre os homens tendem a se tornar autoritárias.

Giora – Qual o impacto da internet na produção de conhecimento na sua área de interesse? Pode-se confiar no conteúdo divulgado?
Veja por exemplo o quanto nossos alunos buscam a Wikipédia.

Maria Aparecida de Aquino – É muito grande e é necessário que nós profissionais nos adaptemos e aprendamos a lidar com um mundo em que as pessoas têm um grande acesso à informação de modo simplificado. O problema não reside na fidedignidade das informações acessadas e, sim, na formação de indivíduos críticos em relação ao conhecimento, qualquer conhecimento. Um homem crítico não é vítima da informação, trabalha com ela de modo a que ela sirva para a ampliação de seus conhecimentos e para a construção de novos conhecimentos.

Giora – Que historiadores a sra. recomendaria a leitura? Que livros não podem ser ignorados em especial pelos jovens?

Maria Aparecida de Aquino – Aqueles que fazem parte da minha formação que eu já destaquei. Obras fundamentais: Robert Darnton: O grande massacre de gatos e O beijo de Lamourette; Carlo Ginzburg: O queijo e os vermes; E. P. Thompson: A formação da classe operária inglesa; Michel de Certeau: A invenção do cotidiano; Michel Foucault: Vigiar e Punir e Microfísica do poder.

Giora – Muito grata pela entrevista.