Criando consciência

Surpreendido com o repentino e inesperado desencarne de meu pai, assumi comigo mesmo a responsabilidade de dar continuidade aos trabalhos da Casa de Caridade que ele havia aberto há vinte e poucos anos, a qual presidia.

Embora desde minha adolescência tivesse vivido e participado de inúmeras ações relativas ao espiritismo, acompanhando o desenvolvimento mediúnico de minha mãe e a forma correta e responsável no proceder de meu pai, nunca quis assumir compromissos mais sérios em relação à mediunidade e à instituição. Preferia ficar mais na observação do que na ação.

Tal responsabilidade era e é tamanha, mas com a situação que se apresentou livremente estava assumindo essa tarefa, dando continuidade aos trabalhos até então realizados.
Sem dúvida um grande desafio.

Na ocasião, a espiritualidade amiga, por meio do irmão Atanásio, alertou-nos acerca da responsabilidade que estávamos assumindo e de que a jornada não seria fácil.

Sinceramente, naquele momento não entendi o verdadeiro sentido daquelas palavras porque tinha, como tenho, plena confiança na falange espiritual que coordena as ações da instituição e porque achava que tinha formação quanto aos procedimentos que deveriam e devem ser adotados em relação aos trabalhos realizados.

Para mim, era seguir os exemplos de meu pai, lembrar das orientações que já haviam sido dadas pela espiritualidade e procurar me aprofundar mais no estudo.

Hoje, passadas quase duas décadas, percebo que o alerta do irmão Atanásio tinha um alcance muito mais profundo porque o compromisso assumido transcende o mero administrar da instituição, obrigando-nos a proceder nossa reforma moral e, dessa maneira, ser exemplo nos atos e atitudes.

Mas, quantas faltas ainda cometemos…como ainda somos falhos…quantas vezes, apesar das reiteradas lições de encaminhamento, ainda titubeamos quando somos chamados a decidir qual caminho devemos seguir?

Porém, com paciência, a espiritualidade amiga, sem deliberar por nós, num tom até mesmo filosófico, reitera suas lições de amor e de proceder, orientando-nos e nos fortalecendo nas batalhas do cotidiano.

Sinto-me um felizardo por ter compreendido isso, mas em contrapartida, no mais profundo do meu eu, tenho sobremaneira aumentada minha responsabilidade e meu compromisso em seguir nessa jornada, por vezes difícil, do enfrentamento do lado obscuro que tenho, como todos temos, para que não incorramos em autoengano, notadamente quando as facilidades nos são apresentadas, porque a escolha errada fatalmente gera dolorosos sofrimentos.

Em minhas preces diárias, peço pouco, mas agradeço muito a Deus pelas oportunidades desta existência, sempre tentando, com dificuldade é certo, edificar o bem em meu coração, na esperança de poder dar minha cota parte na construção de um mundo melhor a partir da minha própria reforma íntima e de cumprir pelo menos razoavelmente minha jornada nesta encarnação.

A lapidação da pedra bruta que somos, apesar da dificuldade em fazê-la, deve ser consciente para que possamos libertar nossas almas do orgulho e dos vícios que submetem o ser.

Gov. do Distrito 4430 de Rotary International, ano rotário 2006/2007